Duas palavras apenas
Para dizer a verdade
Nesse lenço que me acenas
Eu sinto toda a vaidade
Não se acena para o vento
Nem se acena p’ra ninguém
E nesse dito momento
Eu sinto que sou alguém
Não me importo de cair
De levantar-me outra vez
Assim eu me posso rir
Do mal que a vida me fez
Se o sonho alimenta a vida
Lá me vou alimentando
Numa alegria fingida
Sou felizardo sonhando
Quem te arranca, emigrante,
Ao calor da terra berço?
Rumando ao mundo distante,
Virando a vida ao avesso?
Levando recordações
Do que ficou na distância
Lares, terras, tradições
Caminhos de tua infância
Por que abandonas teu ninho
E os que te deram o ser,
Deixando atrás o carinho
De quem te viu crescer?
Porque o pão era duro
E pobre, a terra-mãe
Sentiste que teu futuro
Estaria mais além
Eis porque te foste embora
Em busca de um mundo novo
Levando por terras lá fora
As sementes de teu povo
Olho a caneta e papel
Lembra-me escrever
Mas falta-me que dizer
Há dias assim
Falo de ti?
Falo de mim?
Falo do mundo cruel?
Não sei o que fazer
Pasmado ao meio da rua
Pensando, dei um salto
Pensamento voa alto
E às vezes nem pára
Sonhando coisa rara
Minh’ alma toda nua
Contemplava aquela lua
A sonhar dei um salto
No meio daquela rua
A pensar que sim
A pensar que não
Pensando cá p’ra mim
Não pensar em vão
Depois pensei assim
Partindo não se parte
Se temos amor e arte
Num pensamento são
Sonho, realidade
Fantasia, pensamento
Esfumados pelo vento
Nesta meia verdade
Na vivência dum dia
Que a ser não seria
Uma ténue saudade
De andar tão lento
Repelem-se mutuamente
Nesta constante verdade
Duas forças opostas
De qu’ eu gosto e tu gostas
O sonho e a realidade
Ninguém pense
Que ser madeirense
É tão somente
Vir de um lugar
Algures no mar
Profundo engano!
É muito mais:
É ter pais
É ter avós
A nossa gente
E parte de nós
Cravados p'ra sempre
No oceano